RESGATE 2: TRAN THO

Esta exposição, “Resgate 2”, é o segundo de uma serie de resgates a serem feitos pela Galeria RVB de grandes artistas que hoje se encontram à margem do circuito cultural brasileiro.

“Em toda verdadeira pintura não é possível improvisação. Mas nessa principalmente, não é admissível mesmo. As veladuras, os vernizes, não admitem falsas pesquisas.”

Tran Tho em entrevista ao crítico de arte Quirino da Silva (Diário da Noite, 03-04-1959).

Tran Tho (1922-2003), nascido em Saigon, Vietnã, foi descrito como um homem quieto, reflexivo e enigmático. A própria obra desse artista está envolvida nessa mesma sensação de quietude e mistério. 

Ainda em 1954, Tran Tho impressionou o crítico italiano Guido Perocco, que viu nele um “lúcido esplendor a trazer de volta um pensamento, uma imagem, um pulsar afetuoso da imaginação do homem para com a natureza”. O artista conquistou uma menção honrosa na Bienal de Veneza nesse ano.

Técnica mista sobre madeira.

158 x 108 cm.

Em São Paulo, Tran Tho aproximou-se de artistas como Massao Okinaka (1913-2000), mestre da laca japonesa. Participou de mais de dez Bienais na cidade, organizando a primeira delegação vietnamita em 1955 ao lado de Le Thy (1919-1961), cada um exibindo 10 obras – como Colheita (1948) e Paisagem do Vietnã (1955). O crítico Sérgio Milliet destacou nos vietnamitas uma “sensibilidade fina” e “autenticidade” única. Por volta desse período, em meados dos anos cinquenta, o artista adotou São Paulo como sua terra.

Técnica mista sobre madeira.

47 x 56 x 11 cm.

Técnica mista sobre madeira.

108 x 78 cm.

Em 10 de outubro de 1954, o Việt Minh tomou Hanói, encerrando a dominação francesa na Indochina. No Norte, o Viet Cong exigia que a arte fosse alinhada ao realismo socialista – exaltação de heróis comunistas e os esforços de guerra –, modelos visuais distantes do cosmopolitismo enigmático de Tran Tho.

Técnica mista sobre madeira.

123 x 122 cm.

Apesar de sua aparência de expressionismo abstrato, o qual pode ter absorvido quando montou estúdio em Nova Iorque na virada dos anos 50 para os anos 60, é possível vislumbrar a arte tradicional do Vietnã, influenciada pelo budismo e pelo uso de laca (provinda da resina natural da árvore Cây Son, retirada tradicionalmente principalmente da província de Phu Tho). O artista vietnamita advém dessa rica escola, que congrega as tradições de pinturas em nanquim e laca de heranças sino-japonesas com as técnicas de assemblagem de seu próprio país.

Técnica mista sobre madeira.

122 x 245 cm.

Em suas assemblagens de laca, Tran Tho molda na base da madeira, tinta e fragmentos de cascas de ovos em camadas que respiram. Cada sobreposição constrói um mosaico próprio e pulsante, onde a textura revela uma geografia de fissuras – metáfora tátil da fragmentação humana. Nas entranhas desse labirinto material, por mais abstratas que sejam, figuras emergem como sombras cúmplices: rostos anônimos, monges budistas em meditação e bodisatvas que dançam no limiar do invisível. Sob o aparente turbilhão abstrato, essas silhuetas de “personas ocultas” velam-se em sigilo, não para se esconderem, mas para existir no interstício entre o caos e a ordem. São testemunhas silenciosas de um teatro ancestral, onde o cotidiano e o sagrado se fundem em pinceladas de ouro e resina – vestígios de um mundo que se desfaz e recompõe – espelhos da própria aura enigmática do artista.

Renato Araújo da Silva

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