Antonio Maia: do Nordeste para o Interior de Todos Nós

Antonio Maia é “um artista tipicamente brasileiro, moderno, que usa o popular como matéria de expressão. Não será descabido aproximá-lo a Tarsila do Amaral, embora nele, o componente popular esteja mais próximo das fontes”.

– Ferreira Gullar, Arte Contemporânea Brasileira, 1969

Apresentando obras de diferentes fases desde os anos 60 até os 90, as Galerias Ricardo Von Brusky e Inox organizaram essa exposição individual do pintor nordestino Antonio Maia (1928–2008) como uma espécie de retrospectiva onde a matéria pictórica do artista canta, discreta e generosamente, e na qual é possível passar em revista alguns dos temas mais caros a ele, identificando sutis mudanças de tratamento artístico dado em sua trajetória.

Na capa do livro fundamental: “Dicionário das Artes Plásticas no Brasil” do crítico de arte Roberto Pontual (Editora Civilização Brasileira, 1969) está a pintura dos “Lamentadores da Morte de Antonio Maia”. Num plano de cor uniforme, os que “lamentam sua morte” são todos rostos – como um coro imóvel – pintados de azul saturado, que mostram um contraste cromático intenso – característico dessa obra cheia de brasilidade. Sergipano nascido em Carmópolis, o artista foi servir a nação como soldado da Aeronáutica em Salvador antes de chegar ao Rio de Janeiro, então capital do Brasil, aos 27 anos. Foi no Rio de Janeiro que sua obra começou a tomar forma, dizem, espontaneamente. Sua presença no cenário das grandes exposições nacionais e internacionais, com participações consecutivas nas mais importantes Bienais de São Paulo, foi muito marcante. Desde sua participação na 8ª Bienal Internacional de São Paulo em 1965 e da 9ª edição do mesmo evento em 1967, ele se consagrou como um nome relevante da arte no país.

Antonio Maia expressou a profundidade do inconsciente e da alma brasileira ao gravar em sua obra os arquétipos da religiosidade nordestina por meio dos objetos votivos e de um rico universo de símbolos mágicos, comparáveis às figuras do tarô. Sua obra é única e de difícil enquadramento. Porém, embora haja uma “limpeza formal” e a construção elegante de um reducionismo “primitivo”, quase concreto em sua pintura, é evidente o quanto a sua liberdade poética, a sua subjetividade emocional o coloca num campo contrário ao racionalismo impessoal do abstracionismo geométrico ou do concretismo. O artista queria uma comunicação mais direta com seu público brasileiro para o qual a realidade vem sempre acompanhada de emotividade, formas arredondadas e é repleta de mistérios.

Trata-se evidentemente de um abstracionismo com uma composição cuidadosa e suavizada. Mesmo assim, o artista não é tão despojado ou tão “informal” a ponto de não vermos nele nem uma estrutura geométrica fixa, nem planos bem definidos. O fato é que os planos são dados por um modernista contraste cromático, com a vantagem do uso de acrílica sobre tela. O uso que o artista faz de sobreposição de tonalidades para construção do espaço cria camadas de perspectivas e reforça gestos e formas.

São Francisco, 1988.

Acrílica sobre tela.

60 x 60 cm.

As suas figuras são mais fortes e matéricas que os símbolos internos e a narrativa que o artista valoriza. A sua coloquialidade, portanto, está mais no afeto – no caráter empático de suas figuras antropomórficas (sacralizadas ou votivas) e zoomórficas (pombas ligadas ao espírito santo) – do que na variabilidade de cores vibrantes, tons terrosos e ocres e as cores naturais que utiliza; elementos da esfera modernista. Há um acolhimento sutil das formas ovaladas, circulares e o uso de base de sustentação para suas figuras que, mesmo quando “soltas” na tela, o artista deixa uma dica de exatamente onde elas partiram antes de dar seu belo “voo”. Tudo isso expressa uma generosidade e empatia oferecida ao nosso olhar apaziguado.

 

Sem título, 1967.

Acrílica sobre tela.

55 x 46 cm.

Ex-Votos, 1975.

Acrílica sobre tela.

60 x 40 cm

O principal elemento nordestino que dá figuração em suas obras são as mãos e cabeças de ex-votos, que nos interiores do Brasil são promessas ou oferendas religiosas depositadas em igrejas como um agradecimento por uma graça recebida. Essa “fragmentação” da forma vem ao encontro da estética modernista que, no Brasil, diferentemente da Europa, não precisou buscar um “primitivo” alheio a si, essa busca interior aos instintos primais da alma brasileira. Sobretudo no pincel de “Toinho”, essa busca interior é a própria “nordestinidade”. 

Expectativa, 1977.

Acrílica sobre eucatex.

60 x 60 cm.

Seus ex-votos, tema totalmente nosso, demonstram o mesmo tipo de cabeça elíptica de intuição formal afro-brasileira, tal como foram estudados por Luis Saia, a partir das Missão de Pesquisas Folclóricas organizadas em 1938 por Mário de Andrade. Para parafrasear o “herói da nossa gente” quando falou de Aleijadinho, a obra de Antonio Maia é de religiosidade popular, portanto, é o mestiço e é a independência. Sua fluidez revela, entretanto, uma ambiguidade: se de um lado o artista dá ênfase ao processo de criação no qual seus planos e formas não são geometricamente precisos, ditos ”ingênuos”, por outro lado, ao expressar um mundo interior cheio de signos e de emotividade da identidade brasileira o artista se apresenta como um artista moderno.

A associação da obra desse artista ao modernismo encontrou eco em críticos de arte decisivos.  Em seu livro seminal “Arte contemporânea brasileira” Ferreira Gullar coloca na sequência as suas análises de dois grandes artistas dos “ex-votos”: Farnese de Andrade e Antonio Maia. 

Jesus consola as filhas de Jerusalém, 1977.

Acrílica sobre eucatex.

100 x 100 cm.

O primeiro, diz o poeta, apresenta uma “visão sarcástica desse mundo, reconstruído arbitrariamente com seus destroços menos prestigiados – gamelas, formas de sapato, pedaços de portas, ex-votos… em todos esses objetos, a intenção é dessacralizar imagens e valores… retomando experiências dadaístas e surrealistas”. Por sua vez, continua o poeta, Antonio Maia apresenta dois universos: o “requinte dos acordes cromáticos e a exigência de estilização e da composição… abrindo um caminho pessoal para sua pintura apoiado na iconografia popular nordestina”.

A obra de Antonio Maia faz pequenas inflexões na memória coletiva. A singularidade de sua pintura reside na tensão entre um reduzido “primitivismo” formal, ausência de ornamento, uma geometrização calma, e o uso de signos arcaicos, arquétipos do inconsciente, e toda essa delicadeza de afetos pictóricos que o artista trouxe lá do nordeste para o interior de todos nós.

Renato Araújo da Silva

Referências:

GULLAR, Ferreira. Arte contemporânea brasileira. Rio de janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1969.

SAIA, Luis. Escultura Popular Brasileira. São Paulo: Ed.Gaveta, 1944.

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