Fernando Odriozola e seu encontro com a ‘Sombra’

O pintor de origem espanhola Fernando Odriozola (1921-1986), quando chegou a São Paulo com um pouco mais de 30 anos, impressionou seus colegas com seu domínio do desenho. No ano seguinte, ele já estava expondo seu mundo pictórico único, que contribuiu imensamente para o desenvolvimento do abstracionismo brasileiro. A sua atmosfera misteriosa, enigmática e sombria trouxe uma sensação dramática e quase cósmica que não tinha paralelos no modernismo do país até então.

Fernando Odriozola

Que mundos estranhos e cheios de mistérios eram aqueles desse espanhol recém-chegado de uma Europa destruída pelas guerras? Talvez seus biógrafos se apoiem mesmo no fato de que Odriozola começou a pintar por volta dos 15 anos, justamente quando vivenciou em primeira mão, como combatente, os horrores da Guerra Civil Espanhola, chegando mesmo a servir como oficial no Norte da África. Certamente, ele não seria o único modernista a dar resposta visual aos mais profundos oceanos da alma humana. Antes dele, seu conterrâneo Picasso, 40 anos mais velho, havia dado luz à sua magistral e assombrosa Guernica (1937). Mas Odriozola, diferentemente de seu conterrâneo, viu esses horrores de muito, muito perto.

Segundo Carl Jung, o mundo da sombra, em um nível individual, contém tudo o que reprimimos, negamos ou ignoramos em nós mesmos, e, do ponto de vista arquetípico ou coletivo, a sombra representa o potencial para a escuridão presente na humanidade. Para esse grande pensador e psicanalista suíço, o objetivo da vida psicológica é a individuação, a integração das partes consciente e inconsciente da psique. Assim, o primeiro grande passo nessa jornada é o encontro com a sombra.

Essa exposição na Galeria Von Brusky mostra o quanto a obra de Odriozola é esse encontro. Seu mundo é enigmático, mítico, escuro, sombrio. Emoções intensas e por vezes irracionais tentam buscar no misticismo mágico e no simbolismo uma comunicação entre o visível e o invisível. Talvez por isso a sua figuração não resista ao teste facilitador das formas. Suas formas são escondidas ou inventadas pelo seu mundo onírico.

Após a Segunda Grande Guerra, uma vertente da arte moderna começou a valorizar a expressão espontânea, o gesto do artista, a matéria e o acaso, tudo isso em oposição às formas rígidas e controladas do modernismo anterior.

Fernando Odriozola

Híbrido, 1974.

Técnica mista sobre eucatex.

60 x 91 cm.

Coleção Ladi Biezus.

Esse pensamento estético da arte abstrata se opunha à abstração geométrica (concretismo) e buscava, na expressão informal, exprimir a liberdade, a emoção, a intuição, a subjetividade e as tendências inconscientes. Essa corrente, embora não tenha se organizado em grupos ou escolas de artistas, foi chamada no Brasil de Informalismo Brasileiro. Suas influências diretas foram o expressionismo abstrato norte-americano, o tachismo francês e a pintura caligráfica oriental.

Fernando Odriozola

Gato.

Óleo sobre eucatex.

55 x 80 cm.

Coleção Orandi Momesso.

Fernando Odriozola

Sereia.

Óleo sobre madeira.

57 x 80 cm.

Coleção Cleube de Almeida Mendes.

A questão de se o misticismo mágico se comunica, diverge ou não diverge do mundo onírico é um pseudoproblema para o informalismo. A ênfase não está mais nas formas geométricas precisas, nas linhas retas e círculos que comunicam a racionalidade ou essência das formas, mas sim no gesto e na matéria, nas manchas, na expressão espontânea da mente inquieta, na incorporação caligráfica ou mesmo em rascunhos gráficos ininteligíveis.

Fernando Odriozola

Cavalo.

Óleo sobre tela.

80 x 120 cm.

Coleção Família Azevedo.

Se há uma obsessão específica na obra de Odriozola, é quanto ao mistério lunar. Pode-se dizer que, na sua profunda meditação sobre a sombra, a única luz presente é a luz da lua. Mas essa é uma luz que não revela, ela apenas sugere.

Na mitologia grega há Ártemis (com seu símbolo de Lua Crescente, deusa da caça e da natureza selvagem) e também Hécate (ligada à Lua Nova/Minguante, associada à magia, à noite e aos mistérios do submundo) – assim como o Exu iorubano e afro-brasileiro, essa última é a guardiã dos portões e caminhos.

Fernando Odriozola

Paisagem 3, 1963.

Nanquim e têmpera sobre tela.

74 x 94 cm.

Participou da VII Bienal de SP.

Prêmio Aquisição Cia. de Seguros da Bahia.

A obra de Odriozola reflete bem esses mistérios das musas em mundos fantásticos e oníricos: suas superfícies texturizadas criam universos paralelos, suas paletas de cores são específicas e escolhidas a dedo (são tons terrosos, vermelho-sangue profundo, branco e verde), seu gesto é livre, mas sigiloso, suas formas flertam com o acaso e com o profundo enigmático dentro de nós.

Em sua jornada pictórica, Fernando Odriozola encarnou a sombra na própria matéria de suas telas. Mas ele não apenas figurou a sombra do mundo, e sim figurou o mundo desde a sombra. Ao fazê-lo, integrou à arte brasileira a possibilidade de um diálogo visual com os aspectos mais obscuros e arquetípicos da percepção. Por outro lado, com a inclusão de brilhos noturnos, reflexos da lua, paradoxalmente, ele acabou por pintar alguns pontos luminosos para nos guiar em nossa terrível condição humana.

Renato Araújo da Silva

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